quinta-feira, 27 de março de 2008

Chega de saudade

Sonhei com você.

Estávamos em Buenos Aires, no Teatro Colón. Na bilheteria, uma fila enorme. Eu era a última e te esperava chegar. Uma mulher me entregou os dois últimos ingressos. Fui me informar sobre o espetáculo e era um monólogo com a Dira Paes. Tinha um cartaz enorme que divulgava a peça. Ela estava linda e eu não lembro o nome.

Depois o teatro abria e a fila ia se dissipando. O meu celular tocava e você me surpreendia com um 'alô' dizendo que não ia chegar, que tinha se perdido, que Buenos Aires era grande demais. Eu reclamava, brigava e você chegava por trás, me virava no susto e me abraçava.

Eu não conheço Buenos Aires, mas no meu sonho, tenho a certeza de que a arquitetura da cidade e os detalhes da ilusão se encaixam perfeitamente na realidade. Tenho essa certeza porque o seu abraço encaixou nas mesmas sensações reais de coração acelerado dos nossos braços.

O único fato curioso é que eu acho que a Dira Paes não está em cena atualmente.

Eu lembro que você usava uma camisa igual a que eu tinha acabado de presentear meu pai. Usava uma calça jeans e as mulheres ao redor te observavam com olhos de desejo.

Dentro do teatro buscávamos, sem sucesso, poltronas juntas. As luzes se apagavam. E nada. E você me puxou e sentou no chão, encostado na parede. E eu me acomodei ao seu lado. Qualquer lugar ao seu lado parecia confortável. Qualquer lugar ao seu lado parecia correto.

Depois eu acordei.

Não consegui mais dormir. Cheguei na janela do meu quarto e o dia estava a ponto de clarear. Tomei café na padaria antes de ir pro colégio. Tem um atendente de não mais que 18 anos que me serve e me dá papo. Acho ele bonito e ele me provoca a sensação aconchegante de sossego. Não sei explicar. E ele tem olhos grandes. Pretos. E gosta de fazer perguntas. Ele deve saber que consulto um analista semanalmente. E parece não se importar.

Ele deve saber que eu ando precisando de uns abraços.

Não acho que eu tenha futuro com ele, no sentido de cama, mesa e banho. Também não é esse o meu desejo. Mas eu gosto de olhar pra ele. Gosto que ele olhe pra mim. Gosto de perceber ele se aproximar de mansinho, procurando conversa, falando com um sotaque divertido. Quase todas as manhãs nos falamos.

Hoje ele me perguntou se eu estou triste. E eu devo estar.

Depois de sair da padaria, voltei para a porta da minha casa e esperei a minha van alguns segundos, sem sucesso. Quando o trânsito está ruim e eu fico dentro dela por volta de 45 minutos. Sem paciência, decidi ir a pé mesmo. Cheguei no colégio e não consegui assistir nem uma aula inteira. A não ser a aula de dança, hoje começamos aprender bolero, me distraiu um pouco. Acordei hiper-ativa.

Caminhei no bairro do colégio por mais ou menos dois horários. Sem parar. Caminhar me faz bem. É quase incrível que eu tenha me habituado. O corpo acostumou. Os músculos e as articulações não estão mais tão doloridos.

O fato é que eu sonhei com você e com a Dira Paes. E não sei o que isso significa. Nada deve mudar entre nós. O definitivo ainda me parece a melhor das escolhas. O definitivo talvez seja a forma mais legítima de uma coisa bonita que eu jamais senti igual. Sem aquele papo de auto-ajuda açucarado e pouco interessante. Um sentimento bruto. Real. Sem tréguas.

No fundo, o que eu tanto procurei, encontrei em você.

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