
Pai, hoje realmente descobri que gosto de você. O processo de aprendizado foi longo e bem difícil, mas valeu a pena achar esse amor perdido entre nós. Não adianta. A gente não se dá bem, e isso não muda. Eu não suporto seu jeito de falar me menosprezando e não economizando ofensas pra me fazer sentir inferiorizada, sua voz alta e grossa latejando em meus ouvidos. Detesto quando você chega em casa descontando sua amargura em qualquer um que se atreva falar contigo e passa pelo meu quarto me ignorando e fingindo nem notar minha existência. Tenho pavor do seu jeito de mexer no computador, tão devagar. Enoja-me o seu jeito de falar dos outros, e de mim. Odeio tanto essa sua mania de se achar sempre o certo, todo poderoso. Mas somos tão parecidos. Acho que herdei não só seus olhos, mas principalmente, sua ignorância e seu jeito de chorar. Sempre sozinho. Temos o mesmo gosto musical. Meu prato predileto, ainda é o mesmo que o seu. Temos o mesmo orgulho intocável. Eu não abaixo a cabeça pra você, mesmo você sendo meu pai. E você nunca se referiu a mim com algum tipo de palavra carinhosa ou tabu, mesmo eu sendo parte de você. Você nunca me tratou como “a filhinha do papai”, com toda aquela super proteção e fragilidade que as minhas irmãs sempre tiveram. Acho que sou forte. E isso, com certeza, também herdei de você. Você nunca foi de expor seus sentimentos. Acho que nunca ouvi um “eu te amo” saindo da sua boca. Você não tem o costume de me elogiar ou falar sobre meus acertos. Confesso, foram poucas as vezes que olhei pra você como um PAI. Eu não sei quanto tempo faz, mas venho descobrindo um enorme sentimento por você. Sinto falta de rir da sua cara de sono e aturar seu péssimo humor matinal. De sentir aquele beijo mais frouxo, todas as manhãs quando era criança. Saudade dos incontáveis casos desinteressantes sobre sua infância. Saudade de você gritando: Boa noite, Deus te abençoe! Saudade de te apertar e ouvir você dizendo que eu sou muito chata. Saudade de quando você vinha com a Laura na mão e deitava comigo, só pra me encher de fuinhas. Mas pai, sabe do que tenho mais saudade? De sentir um abraço seu. Perdão por não ter atendido às suas expectativas, e não ter sido aquela filha dos seus sonhos. Não quero deixar essa nossa estúpida semelhança nos afastar e nos tornar inimigos mortais. Às vezes doía olhar pra você e enxergar os seus defeitos, mas hoje, descobri que dói mais ainda enxergar os seus defeitos em mim e você me culpar pelo olhar.



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